quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Fast Food Nation

1) Luiz Gúsman é um motorista que transporta mexicanos ilegais. Barba desgrenhada, aquela roupa típica da mexicanidade sem refinamento, óculos"característicos". Não afirmarei que, se fores atravessar a fronteira do México com os EUA, não haja a possibilidade, talvez bastante concreta, de encontrar um tipo assim. Porém, o que muitos, ainda hoje, ignoram é que, mesmo quando se baseia em acontecimentos ou re-(a)presenta pessoas. o cinema tem lógica própria. Tomemos as reações de alguns críticos ao delegeado Fleury interpretado por Cassio Gabus Mendes em Batismo de Sangue. Ora, Fleury, segundo relatam, era um monstro. Mas para criar uma imagem de monstro é preciso encontrar o tom e a melhor forma para se estabelecer esse efeito de monstruosidade. Não basta mostrar o personagem com cara de coisa-ruim, tampouco tirando sangue de torturados, para termos na tela uma imagem capaz de nos levar a crer nela. O estatuto do cinema é diferente da experiência vivida fora da ficção. Pois então: Gúsman pode até ser igualzinho aos motoirstas de van que transportam imigrantes cladestinos, mas, na tela, parece atender a uma certa imagem já disseminada desse tipo de personagem: o mexicano bronco.

2) Bruce Willis certamente faz participação de uma única sequência, na qual aparece sentado comendo em uma lanchonete com Greg Kinnear, apenas porque assim quis o diretor Richard Linklater. Uma aparição de estrela. No entanto, se é para ser estrela em aparição, Willis resolve levar a sério. E levar a sério essa participação significa "roubar a cena". A expressão andou sendo tão surrada nas mãos de escribas pautados por slogans vazios que não parece significar mais nada para além de uma "interpretação show". Porém, quando há o show de interpretação, não há roubo. O show é a cena. Roubar a cena tal qual faz Willis é adaptar a cena à sua interpretação, jamais a interpretação à cena, e encaminhá-la para um tom e uma direção dados menos pela situação e mais pelo ator. Em outras palavras, ao terminar a cena, o que aconteceu, nela, foi só o "roubo". Tais momentos, tal qual esse de Willis, parecem à parte, como se fossem de outro filme, porque o ator, naqueles segundos ou minutos, é um filme em si.

3) Catalina Sandino Moreno estreou com Maria Cheia de Graça (2004), pelo qual foi indicada ao Oscar, e apareceu depois disso em outros seis filmes em três anos. Tendo ganho visibilidade com o primeiro trabalho, na pele de uma colombiana em atividade ilegal nos EUA, esse tipo de personagem parece ter pautado sua curta carreira. No episódio de Walter Salles e Daniela Thomas em Paris Te Amo, ela é a imigrante latina na França. Em Fast Food Nation, uma imigrante ilegal nos EUA. Curiosamente, Catharina ainda não trabalhou, até o momento, com nenhum diretor de seu país, a Colômbia, tampouco com realizadores da América hispânica. Suas atuações foram dirigidas por três americanos, dois brasileiros e por um espanhol. É uma latino-americana transnacional, mas, sempre, vivendo as agruras de mulheres latinas no mundo

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